Óleos essenciais na agricultura: abordagem agroecológica no controle de pragas*

Atualizado: 3 de out. de 2020

Marco Andre**

A revolução verde foi um movimento científico e governamental que teve início em 1940 com a finalidade de promover ações que levassem ao aumento da produtividade agricultura, baseados em melhoramento vegetal, fertilização, manejo do solo e controle de pragas e doenças, que teve a pretensão de acabar com a fome no planeta 1–3. A agricultura orgânica tem se apresentado em antagonismo aos sistemas produtivos que se destacaram após a revolução verde, adotando no seu sistema produtivo tecnologias e práticas livres de substâncias sintéticas, para o controle de doenças e pragas 4,5.


Diante desse antagonismo ao qual o sistema produtivo agrícola está submetido, cabe ao engenheiro agrônomo e demais profissionais da área desenvolverem soluções aos diversos problemas relativos à agricultura e aos impactos dessa atividade econômica fundamental a sobrevivência da população. Não são poucos os impactos da atividade agrícola sobre o meio ambiente – como toda e qualquer atividade econômica, diga-se a verdade. Contudo, a utilização irresponsável de produtos químicos sintéticos, produzidos a partir de matrizes fósseis, para o controle sanitário de pragas e doenças, chamados popularmente de agrotóxicos, tem sido responsável por intoxicações e contaminações de pessoas, animais e dos recursos hídricos 6–9. Neste contexto, o Estado brasileiro tem sido um péssimo exemplo no que diz respeito a certificação/liberação e a fiscalização do uso dessas substâncias sintéticas na agricultura 10,11.


A aplicação de substâncias naturais, incluindo os óleos essenciais, tem sido amplamente estudada e os resultados, de modo geral, fundamentaram um crescente número de artigos científicos e de patentes para o controle de insetos em ambiente doméstico e de pragas agrícolas 12. O óleo essencial é um produto natural, uma mistura complexa de substâncias, obtido das plantas por técnicas especificas que envolvem a destilação com vapor de água ou a expressão de epicarpo de frutos cítricos 13.


Diferentes grupos de pesquisa vêm trabalhando intensamente para compreender como os óleos essenciais afetam o metabolismo e a fisiologia dos insetos 14,15. Os trabalhos têm início com a observação do efeito do óleo essencial sobre o ciclo e o comportamento sexual dos insetos, depois avalia-se como isso afeta o metabolismo e se os resultados são coerentes com aqueles observados durante o ciclo de vida do inseto Com base nos resultados experimentais, surgem as propostas de aplicações tecnológicas, as quais necessitam de validação experimental em escala laboratorial e de campo (Figura 1).


Figura 1. A avaliação do efeito dos óleos essenciais é baseada em alguns aspectos do ciclo reprodutivo (por exemplo o caruncho do feijão-caupi), como a mortalidade de insetos adultos, postura de ovos e surgimento de novos adultos após os estágios larvais no interior do grão e, também, sobre o metabolismo. Quando os resultados são promissores as propostas de novas tecnologias são implementadas e testadas em escalas piloto e de campo.

Os óleos essenciais, por sua vez, são obtidos facilmente por hidrodestilação. O procedimento de extração pode ser realizado em qualquer propriedade agrícola e os produtos obtidos são ricos em substâncias bioativas que conferem propriedades biológicas ao óleo essencial, como por exemplo a proteção contra fungos, bactérias e insetos. Neste contexto, o grupo de pesquisa vinculado ao LABPAM desenvolve o projeto de pesquisa “óleos essenciais na agricultura: abordagem agroecológica no controle de pragas e doenças de interesse agronômico”.

Ainda em escala laboratorial, alguns óleos essenciais têm sido testados para a proteção de grãos, utilizando como modelo de estudo o feijão-caupi e o caruncho do feijão-caupi, inseto praga Callosobruchus maculatus. Os resultados da estudante de doutorado Marcela de Souza Alves (PPGQ) apontaram para o potencial do óleo de capim-limão para a proteção dos grãos. Ao que tudo indica, o óleo essencial afeta negativamente o fluxo de energia metabólica nos insetos fêmeas prejudicando a oogênese e a sobrevivência dos insetos adultos. Também foi constatado que a enzima acetilcolinesterase teve sua atividade reduzida, contribuído com o estresse e a diminuição dos níveis energéticos, provocando a mortalidade. Estes resultados foram publicados na Crop Protection, uma conceituada revista científica específica da área e pode ser acessado no Link (https://doi.org/10.1016/j.cropro.2019.02.007).

O trabalho não parou por aí, resultados preliminares, apontaram para o efeito residual do óleo de capim-limão - o que é bom se considerarmos a formulação de um produto - e alteração no perfil metabólico dos insetos, corroborando com os resultados publicados (Figura 2). Parte dos resultados foram publicados e podem ser observados no link (https://www.atenaeditora.com.br/post-artigo/38658) e demais informações serão publicados em revistas científicas da área.

Figura 2. A verificação do efeito residual protetor do óleo essencial de capim limão em escala laboratorial. As sementes são revestidas e armazenadas e o efeito residual protetor avaliado em diferentes tempos de armazenamento, com base no ciclo reprodutivo do inseto. Também, verifica-se a presença de resíduos químicos do óleo essencial na superfície das sementes após diferentes tempos de armazenamento.



* Essa matéria foi baseada na publicação de um capítulo de livro que pode ser acessado na integra no link: (https://www.atenaeditora.com.br/post-artigo/38658).

** Professor de Bioquímica (DBQ, IQ/UFRRJ). Credenciado no Programa de Pós-graduação em Química. Coordenador do projeto “óleos essenciais na agricultura: abordagem agroecológica no controle de pragas e doenças de interesse agronômico”

e-mail: decoerej@yahoo.com.br



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2. Nunes, F. J., Dias, F. P. M. & Silva, R. F. da. A REVOLUÇÃO VERDE E SEUS IMPACTOS NA SAÚDE HUMANA COM A MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA. Rev. Revise 3, 1–3 (2018).

3. Dutra, R. M. S. & Souza, M. M. O. de. CERRADO, REVOLUÇÃO VERDE E EVOLUÇÃO DO CONSUMO DE AGROTÓXICOS. Soc. Nat. 29, 473–488 (2017).

4. Ehlers, E. O que é agricultura sustentável. (Brasiliense, 2017).

5. Wezel, A. et al. Agroecological practices for sustainable agriculture. A review. Agron. Sustain. Dev. 34, 1–20 (2014).

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7. Kim, K.-H., Kabir, E. & Jahan, S. A. Exposure to pesticides and the associated human health effects. Sci. Total Environ. 575, 525–535 (2017).

8. Al Naggar, Y. et al. Organophosphorus insecticides in honey, pollen and bees (Apis mellifera L.) and their potential hazard to bee colonies in Egypt. Ecotoxicol. Environ. Saf. 114, 1–8 (2015).

9. Wagner, N. et al. Evaluating the risk of pesticide exposure for amphibian species listed in Annex II of the European Union Habitats Directive. Biol. Conserv. 176, 64–70 (2014).

10. Mosmann, M. P., Albuquerque, L. & Barbieri, I. B. Agrotóxicos e direito humanos no contexto global: o Brasil em risco de retrocesso? Rev. Direito Int. 16, (2019).

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14. Adorjan, B. & Buchbauer, G. Biological properties of essential oils: an updated review. Flavour Fragr. J. 25, 407–426 (2010).

15. Alves, M. de S. et al. Efficacy of lemongrass essential oil and citral in controlling Callosobruchus maculatus (Coleoptera: Chrysomelidae), a post-harvest cowpea insect pest. Crop Prot. 119, 191–196 (2019).

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